Frei Michel da Cruz, OFMConv
No presente há sempre um presente: a chance de se trabalhar.
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Abraços
Posso te dar um abraço? Foi a pergunta que um homem adulto me fez e que mexeu comigo. Como assim? Dar um abraço? As pessoas podem fazer tal pedido? Eu achava que abraços se davam de maneira espontânea em momentos de euforia ou de profunda tristeza e solidariedade. Mas, aquela pergunta, naquele momento, logo antes da missa, lançou-me num profundo questionamento. O que é pior, essa pergunta voltou a ser repetida várias vezes ao longo das ultimas semanas pelos lábios de outras pessoas. Se eu fosse dado à mania de perseguição, até diria que as pessoas combinaram tal pergunta para me constranger. Mas, o que dizer diante de um Deus que corre e abraça um filho transviado e pecador que retorna para casa após dissipar os bens do Pai (cf. Lc 15)? Será que até a Liturgia está contra mim?
Sempre entendi como dispensáveis as demonstrações exageradas e sentimentais de amor. Isso, por si mesmo, seria um bom tema de conversa para o meu analista ou psicólogo... Nunca pensei que fosse importante aprender a abraçar ou tocar o outro. Para falar a verdade, não sou um adepto aos contatos físicos. A linguagem dos olhares sempre me atraiu mais. Talvez porque desde cedo aprendi a decifrar o desejo de meus progenitores por meio do que seus olhos me revelavam e disso dependia o meu bem estar ao me sentar. Os olhos dizem muito acerca de nossa alma, daquilo que se passa em nosso interior. E mais, enquanto religioso, tal como os poetas e comunicadores, acostumei-me a tocar as pessoas por meio das palavras e, jamais com o corpo, quando muito, bastava o aperto sincero de mãos. Confesso que ainda não entendi o porquê, a esta altura do campeonato, a vida resolveu me pedir mais que um simples aperto de mão e dois beijinhos.
Pensando bem, é verdade que eu, de alguma maneira, abraçava as pessoas. Na juventude, meus amigos riam do fato dos meus abraços serem de lado. Riram tanto de mim que comecei tentar mudar esse meu jeito de ser. Passei a dar abraços meio de lado. Isso reduziu a distância, mas eu precisava fazer mais. Cresci, virei noviço da vida e comecei a treinar abraços de frente nas árvores. Por acaso, alguém já tentou abraçar uma árvore de tronco mais espesso de lado? Eu tentei e não consegui. Pobre abacateiro do noviciado... Quantos abraços recebidos e retribuídos à sua maneira... Gostei de cingir com meus braços as árvores e isso me bastava. Por essa razão, aconselhava meus amigos: “Está carente? Abrace uma árvore.” Nesse tipo de abraço há uma troca de energia e afeto com a obra da criação. Ao abraçar a criatura, recordamos o criador e percebemos o seu cuidado para com a criação da qual também nós fazemos parte. Abraçar arvore gera em mim uma sensação de harmonia e paz.
Mas, alguém me recordou que o ser humano é mais que uma árvore. Os vegetais não fogem de nossas manifestações de carinho ou, instintivamente, nos mordem quando não querem receber nosso afeto ou interpretam mal as nossas ações de ternura. Posso te dar um abraço? Ele me perguntou. Eu disse sim e me permiti ser abraçado e abraçar... Desde esse dia percebo que alguma coisa vem mudando dentro de mim. Pois, pensei que na vida era suficiente abraçar árvores. Contudo, agora descobri que é muito melhor abraçar gente.  E o Evangelho tem me ensinado que mais sublime ainda é abraçar e se sentir abraçado por Deus.
Frei Michel da Cruz
Enviado por Frei Michel da Cruz em 10/09/2016


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