Frei Michel da Cruz, OFMConv
No presente há sempre um presente: a chance de se trabalhar.
CapaCapa
Meu DiárioMeu Diário
TextosTextos
FotosFotos
PerfilPerfil
Livro de VisitasLivro de Visitas
ContatoContato
LinksLinks
Textos

Cá e Lá
Eu não tenho o costume de compartilhar nas redes sociais fotos de tragédias e atrocidades acontecidas no estrangeiro ou mesmo em nosso estado. Eu já vinha meditando faz muito tempo sobre este fato. Pode ser que alguém me chame de alienado ou egoísta. Mas, apresento as minhas razões e estou disposto a dialogar...
É muito fácil sentir-se tocado pela dor de quem está longe. Ao ver uma catástrofe, tais como aquelas que somos bombardeados todos os dias pelos meios de comunicação, muitas das vezes, somos tomados de um mal estar instantâneo, que passa rápido como a chegada de uma nova manchete televisiva. Somos sensíveis à dor do outro, mas imediatamente nos confortamos com a sensação, ou desculpa, de não podermos fazer nada. Afinal, o sofredor está tão distante...
Olhamos a dor do “próximo longe” e, de certo modo, nos sentimos consolados pela distância geográfica e a nossa incapacidade de fazer algo por ele. No máximo nos contentamos em oferecer ajuda financeira a alguma instituição que dê assistência às vítimas das tragédias. Algumas vezes, somos bons de ocasião. Olhamos para a dor do outro quando ela se torna um espetáculo midiático.
Nestas horas, eu me pergunto pela dor cotidiana; pela dor de cada dia... Será possível olhar para lá sem prestar atenção no aqui? E onde está o meu próximo mais próximo? Sou sensível à dor deste? De fato, talvez eu não possa fazer muito para aliviar a dor daquele que está longe. Contudo, eu posso fazer alguma coisa por aquele homem que sofre ali na praça, pela qual passo todos os dias; por aquela mulher que está na esquina, onde eu moro; por aquele filho de Deus que dorme na porta da minha casa. Eu posso ouvir o drama existencial daquela pessoa que entrou na igreja só para chorar e desabafar. Nossa, eu posso até fazer algo por aquela pessoa, que por acaso (se o acaso existir) está na minha casa e é meu parente!
Não quero dizer que não devemos olhar e se sensibilizar pela dor de quem está longe. Pois eu acredito que exista certa solidariedade universal, tanto para o bem quanto para o mal, entre todos os seres criados e, de modo particular, entre todos os homens. Porém, também acredito que muito mais faço por quem está longe quando cuido de quem está perto. Se quero acabar com a fome no mundo, em primeiro lugar devo matar a fome do meu vizinho. Pois, ao fazer isso, de certo modo o meu ideal original já começou a se tornar realidade.
Como olhar para lá sem se comover com o que ocorre cá? Lá é vontade de ajudar. Cá é possibilidade de ajuda. Lá é sonho. Aqui é realidade de ação. Como posso querer fazer o que está para além das minhas forças, se não pratico nem aquilo que posso? Como olhar ao longe, se não consigo olhar para o lado? Assim, prefiro primeiro tentar resolver, com minhas fragilidades e limitações, o que posso, para, a partir daí, alçar vôos mais longínquos.
Sabe, às vezes me perguntam por que estou tão calado e silencioso... Talvez seja porque estou cansado de dizer e louco para fazer...
Frei Michel da Cruz
Enviado por Frei Michel da Cruz em 09/11/2012


Comentários