Frei Michel da Cruz, OFMConv
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08/09/2019 10h19
Deus não engana ninguém

Deus não engana ninguém e tão pouco traz alguém enganado. Ele não é adepto da propaganda enganosa. A promessa de Jesus Cristo é de felicidade, mas esta não se confunde com facilidade. O seguimento do Mestre da Galiléia exige radicalidade, adesão e comprometimento total. Dentro da hierarquia de valores e prioridades, Deus deve ocupar o topo, o primeiro lugar. Portanto, antes de se colocar na sequela Christi, no seguimento de Jesus, e se considerar um cristão é preciso parar, sentar-se e refletir se está pronto para percorrer esse caminho até o fim. Somente a sabedoria do alto é capaz de nos mostrar que vale a pena deixar tudo para seguir a Jesus Cristo.
A liturgia da palavra deste 23º domingo do Tempo Comum expressa essa realidade. A primeira leitura retirada do livro da Sabedoria (Sb 9,13-19), um escrito que tem sua origem no século I a.C., num mundo onde a cultura helênica era predominante, traz como grande tese a superioridade da sabedoria do povo de Deus em relação à cultura dos povos pagãos. O trecho apresentado pela liturgia versa sobre a superioridade dos pensamentos divinos em relação ao conhecimento humano. O autor sagrado procura questionar a capacidade humana de conhecer a vontade de Deus. Ao fazer isso, o hagiógrafo chega à conclusão que só é possível conhecer os desígnios divinos e, desta maneira, agradar a Deus se o próprio Senhor se revelar e se der a conhecer. Em outras palavras, de Deus só sabemos o que ele mesmo nos diz e ensina. Neste sentido, a leitura nos convida a clamarmos a sabedoria do alto e nos abrirmos àquilo que Deus quer nos revelar. Desta maneira, poderemos agradar ao Senhor e alcançarmos a sua salvação.
Por sua vez, a carta de São Paulo a Filêmom, a menor e a mais pessoal das cartas paulinas, Trata  da generosidade e do real sentido da fraternidade cristã, que iguala os homens desconsiderando suas diferenças. Nesta carta, Paulo intercede por Onésimo, um escravo fugido de Filêmon com quem Paulo se encontrou na prisão e conseguiu converter. Esse escravo se tornou um grande colaborador de Paulo na prisão. Por isso, o Apóstolo dos Gentios envia Onésimo de volta para junto de seu proprietário legal portando uma carta de recomendação, na qual São Paulo pede ao destinatário que acolha esse escravo não mais de acordo com sua condição social, mas como um irmão em Cristo e, mais ainda, como ao próprio Apóstolo. Nesta leitura encontramos a força da radicalidade cristã que supera todas as barreiras tornando todos os homens iguais na presença do Senhor, que não faz acepção de pessoas. O batismo nos iguala, pois, por meio deste sacramento, todos somos vistos e reconhecidos a partir daquilo que realmente somos: filhos de Deus!
Por fim, o Evangelho de hoje (Lc 14,25-33) trabalha o tema da radicalidade do seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aqui, não pode haver meios termos. Por isso, Jesus utiliza uma palavra forte para chamar a atenção da multidão que o segue. A busca do Reino exige renúncia e desprendimento. Quem se propõe a seguir a Jesus Cristo deve estar disposto a abraçar a cruz. Jesus, na verdade, abre os olhos daqueles que estão seguindo-o no caminho que culminará em Jerusalém. É interessante voltar ao início da perícope apresentada (Lc 14,25). Jesus ainda está caminhando para Jerusalém. O que espera o Senhor, neste lugar, é a rejeição e a cruz. No entanto, as pessoas parecem ainda não ter se atinado para esta realidade. Por isso, o Evangelho apresenta uma multidão seguindo Jesus. É neste contexto, que Jesus faz a sua advertência aos seguidores. Seguir o caminho de Cristo não é algo fácil. É preciso tirar da cabeça a falsa ideia de que é fácil ser cristão. No Evangelho de Lucas, Jesus ensina que o seu caminho exige renúncia. O cristão é chamado a colocar Deus em primeiro plano. O Senhor deve estar acima dos vínculos familiares, da posse dos bens e, até mesmo, da nossa própria vontade. Esse é o sentido de odiar (Misséô): colocar em segundo lugar, pois apareceu na vida um valor mais importante. O discipulado cristão é algo exigente. Ele implica em decisão e conversão. O Cristão é alguém que refaz a sua hierarquia de valores. Ele redimensiona e re-significa a vida. Por isso, a adesão ao projeto do Reino proposto por Jesus Cristo não pode ser somente um sim dado da boca para fora. O que está em jogo aqui é a entrega da própria vida e o comprometimento de todo o ser em todas as suas dimensões. Não é por acaso que Jesus fala da necessidade de se ponderar acerca da decisão de segui-lo. Antes de fazer de Cristo a opção fundamental de sua vida, o cristão é chamado a refletir se tem ou não condições de levar esse projeto até o final e às últimas consequências. Ao fazer isso, Jesus quer tornar clara a decisão que o cristão está tomando. A intenção do Senhor não é que as pessoas deixem de segui-lo. Pelo contrário, o que ele deseja é que elas, ao seguir-lo, tenham consciência do que estão fazendo. Daí surge a necessidade de se sentar, pensar e ponderar se vale a pena ou não arriscar tudo neste projeto de vida. Aqui é importante fazer uma ressalva e perceber a ligação do Evangelho com a Primeira Leitura. Somente a sabedoria do alto nos torna capazes de entender que vale a pena arriscar e deixar tudo para seguir a Jesus Cristo!
Que a Liturgia da Palavra deste Domingo nos torne conscientes da radicalidade da opção que fizemos no dia do nosso batismo e nos faça pessoas comprometidas com a causa do Evangelho, capazes de abraçar a nossa Cruz e ir na esteira de Jesus até as últimas consequências.
Abençoado domingo!
Paz e bem!


Publicado por Frei Michel da Cruz em 08/09/2019 às 10h19