Frei Michel da Cruz, OFMConv
No presente há sempre um presente: a chance de se trabalhar.
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01/09/2019 04h27
Lc 14,7-14

A humildade e a gratuidade são duas notas características do amor cristão e também são duas virtudes que os seguidores de Jesus Cristo devem cultivar para entrarem no Reino dos Céus.
Para entendermos Lc 14,7-14, é necessário voltar a nossa atenção para o primeiro versículo do capítulo 14 do Evangelho de São Lucas e compreendermos o contexto em que Jesus se encontra. Estamos ainda em viagem para Jerusalém. Neste caminho, Jesus é convidado, num dia de sábado, para fazer refeição na casa de um chefe dos fariseus. É a terceira vez que Jesus come na casa de fariseus, no Evangelho de São Lucas (Lc 7,36;11,37). Embora saiba que este grupo está interessado em descobrir alguma falha sua para entregar-lhe às autoridades judaicas, Jesus não foge dessas ocasiões e aceita fazer refeição na casa desse líder dos fariseus. A perícope que antecede imediatamente a passagem que acabamos de ouvir narra a cura de um hidrópico em dia de sábado. Nessa passagem, Jesus ensina que não existe limite legal que se impeça de fazer o bem. Podemos, assim, perceber que a refeição já começa expondo uma certa tensão entre o anfitrião e o seu convidado principal.
Os fariseus observam Jesus, mas também, o Mestre da Galileia os observa. É nesse contexto que Jesus expõe uma parábola e dá um conselho (Lc 14,12-14) que bem podem dividir o Evangelho em duas partes. Na primeira parte da cena (Lc 14,7-11), o Senhor se dirige aos convidados e, por meio de uma parábola, convoca-lhes a ter uma atitude de humildade. A parábola é contada partir da observação e constatação que faz da atitude dos convivas. Estes, acreditando que são bem quistos, ao adentrarem o banquete, escolhem os melhores lugares para se sentarem. Esqueceram-se que na festa são apenas convidados e querem portar-se como o dono da festa, que tem o direito de escolher quem se senta mais próximo ou distante dele. Jesus está chamando a atenção dos fariseus, que se achavam, devido ao seu grau de pureza e prática da religião, os donos do banquete do Reino de Deus. A parábola, assim, recorda que o anfitrião da festa do Reino é Deus e não os homens. Por isso, para entrar no Reino de Deus, a humildade é uma virtude indispensável. Somente os humildes são capazes de reconhecer a sua própria verdade. O humilde, ao contrário do orgulhoso, consegue perceber e reconhecer a sua fragilidade e finitude, por isso, coloca-se na vida não como aquele que possui méritos e direitos, mas sim de modo agradecido, como quem reconhece que tudo na vida é graça e dom de Deus. O humilde não vive a exaltar-se a si mesmo. Ele permite que Deus o faça. Jesus se utiliza de uma regra de educação para alertar aos fariseus acerca do cuidado que devem ter com sua própria prepotência e orgulho. A frase final desta parte (Lc 14,11) não é de autoria de Jesus. Provavelmente, ela pertencia ao círculo da escola rabínica de Hillel. No entanto, entre os primeiros cristãos, esse dito tinha um grande valor, pois, no Evangelho de São Lucas, ele aparece duas vezes (Lc 14,11; 18,14). É preciso ter humildade para não se apossar do Reino de Deus como um ladrão e permitir que Deus seja Deus em nossa vida e história. O cristão é chamado a ser humilde porque, em Jesus Cristo, Deus se revelou humilde (Fl 2,6-11).
Por sua vez, a segunda parte do texto (Lc 14,12-14) versa sobre a gratuidade. Aqui, Jesus se dirige ao dono da festa e lhe ensina quem, de fato, deve ser convidado para seus festejos. Provavelmente, o diálogo entre Jesus e o chefe dos fariseus ocorreu após a refeição, como uma espécie de sobremesa teológica. Nesta conversa, Jesus contraria o costume vigente de convidar pessoas próximas para as festas. O Mestre da Galileia desmascara o interesse que existe por detrás de tais convites. Convida-se quem se sabe que pode retribuir o convite: amigos, irmãos, parentes e vizinhos ricos. Jesus, neste caso, convida o dono da festa a mudar a atitude. Para o Senhor, é mais vantajoso convidar quem não pode retribuir de alguma forma o convite: os pobres, aleijados, coxos e cegos, em suma, os marginalizados da sociedade. Jesus, assim, chama a atenção para a gratuidade. Essa virtude ou característica faz parte do jeito de ser de Deus, que é sempre gratuito para com os homens. Aqui, revela-se um jeito diferente de amar. O amor cristão é sempre gratuito e desinteressado. Não existe mérito ou virtude em amar quem nos ama ou pode recompensar o nosso amor. Isso qualquer pessoa faz. Somente cristão é capaz de amar inimigos e servir quem não pode nos ser útil. Para falar a verdade, Jesus desloca a recompensa esperada dos homens para Deus. Ele parece fazer coro a resposta constante dos pobres diante de um benefício recebido: Deus lhe pague. É interessante notar que o pobre ao agradecer algo recebido não responde muito obrigado, como quem diz: estou obrigado, de alguma maneira, a retribuir-lhe. O pobre diz tão somente: Deus lhe pague. Pois, reconhece-se incapaz de pagar a dívida adquirida, mas confia que Deus o possa fazer.
O Evangelho de hoje é um grande convite a trabalharmos em nós as virtudes da humildade e da gratuidade como instrumentos necessários na construção de um mundo novo e melhor. Que possamos nos deixar levar por essas virtudes e, assim, modificarmos a nossa vida e as nossas relações.


Publicado por Frei Michel da Cruz em 01/09/2019 às 04h27