Frei Michel da Cruz, OFMConv
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16/10/2019 06h59
Adeus Dom Frei Elias

“Noutra ocasião, sentado com seus companheiros, São Francisco suspirou: “É difícil encontrar no mundo inteiro um religioso que obedeça com perfeição a seu prelado”. Atingidos, os companheiros disseram: “Diz-nos, pai, qual é a maior e mais perfeita obediência?” E ele, fazendo uma comparação com um corpo morto, descreveu o verdadeiro obediente: “Pegai um cadáver exânime. Ponde-o onde quiserdes. Vereis que não se incomodará de ser movimentado, não se queixará do lugar, nem reclamará por o terem largado. Se for colocado numa cátedra, vai olhar para baixo, não para cima. Se for vestido de púrpura, vai ficar duas vezes mais pálido.  Esse é o verdadeiro obediente: não fica pensando em por quê foi mudado, não se importa com o lugar onde o puseram, não fica pedindo para ser transferido. Se lhe dão um cargo, mantém a humildade costumeira. Quanto mais honrado, mais se acha indigno” (2 Cel 152,1-7).
Por esses dias, fui designado pelo meu superior para acompanhar mais de perto a dor e o sofrimento de nosso Confrade bispo, Dom Elias. Confesso que antes de morar na diocese de Valença o meu contato com este irmão era muito distante. Uma vez, conversávamos e ele dizia que, devido ao seu ofício, procurava não se aproximar tanto dos nossos formandos. Contudo, no meu retiro de ordenação presbiteral, essa história mudou. Foi uma das experiências de retiro mais interessantes que eu vivi. Ali, eu pude constatar a autenticidade de vida deste Confrade. Antes, eu havia ouvido falar muito sobre o Dom Elias, mas naquela ocasião, eu tive a oportunidade de ouvir e conversar com o próprio Frei Elias, como gostava de ser chamado. Ao fazer isso, eu não conseguia mais olhar para dom Elias e deixar de recordar de 2 Cel 152. A humildade deste Irmão tocou-me em cheio. E, após tornar-se bispo emérito, essa virtude da humildade ficou ainda mais evidente. O seu carinho para com as pequenas comunidades, a sua proximidade com o povo eram extremamente motivadoras. Sempre que me encontrava dizia: “Michel, eu estou te devendo uma visita. Preciso passar uns dias com vocês aí no convento”. Mas, esse dia nunca chegava...
Durante a novena preparatória de sua Páscoa, tive oportunidade de visitá-lo em duas ocasiões. Nas duas, embora dissessem que ele estava inconsciente, ao falar o nome de nossa custódia, pude perceber o seu afeto e carinho. Sempre esboçou reações diante de mim.
Quando soube da Páscoa de meu Irmão bispo, fui imediatamente à cidade Vassouras para ajudar na organização do velório do Confrade. Desta vez, pude constatar pessoalmente o carinho do clero para com ele. Quanta dedicação e empenho em dar-lhe um digno velório e enterro. Queriam que fosse contemplada, de alguma maneira, toda a nossa extensa diocese de Valença, mas, ao mesmo tempo não queriam deixar de lado a família religiosa do bispo que adotou o Brasil como sua pátria. Ao acompanhar as idas e vindas do corpo do confrade pela diocese, pude constatar o carinho do povo para com esse irmão. O carro que transportou o corpo de Dom Elias não passava indiferente pelas cidades. Todos queriam de alguma maneira expressar o seu último adeus a esse bispo irmão, que desejou ser enterrado, não como um prelado, mas sim como um frade, que nunca deixou de ser. 
Diante de tão grande testemunho, pude aprender um pouco de como vive e morre um frade menor: em pobreza, simplicidade, humildade e obediência. Queira Deus que, enquanto Frades, possamos um dia, desse modo, despedimo-nos desta terra. Desejo agradecer a Deus por ter me concedido a graça de viver com tão bela testemunha do jeito de ser franciscano contemporâneo no mundo. Agradeço também a toda Diocese de Valença, especialmente os irmãos no presbitério por todo carinho demonstrado para com o meu confrade bispo. Por Dom Frei Elias, elevo minhas orações a Deus e peço ao Confrade que rogue, juntamente com São Francisco, pelos frades do mundo inteiro, especialmente por nós frades da Custódia Imaculada Conceição. 
Como ensina São Francisco: “Louvai e bendizei a meu Senhor,
E dai-Lhe graças,
E servi-O com grande humildade”. Amém.


Publicado por Frei Michel da Cruz em 16/10/2019 às 06h59
 
16/10/2019 06h59
Adeus Dom Frei Elias

“Noutra ocasião, sentado com seus companheiros, São Francisco suspirou: “É difícil encontrar no mundo inteiro um religioso que obedeça com perfeição a seu prelado”. Atingidos, os companheiros disseram: “Diz-nos, pai, qual é a maior e mais perfeita obediência?” E ele, fazendo uma comparação com um corpo morto, descreveu o verdadeiro obediente: “Pegai um cadáver exânime. Ponde-o onde quiserdes. Vereis que não se incomodará de ser movimentado, não se queixará do lugar, nem reclamará por o terem largado. Se for colocado numa cátedra, vai olhar para baixo, não para cima. Se for vestido de púrpura, vai ficar duas vezes mais pálido.  Esse é o verdadeiro obediente: não fica pensando em por quê foi mudado, não se importa com o lugar onde o puseram, não fica pedindo para ser transferido. Se lhe dão um cargo, mantém a humildade costumeira. Quanto mais honrado, mais se acha indigno” (2 Cel 152,1-7).
Por esses dias, fui designado pelo meu superior para acompanhar mais de perto a dor e o sofrimento de nosso Confrade bispo, Dom Elias. Confesso que antes de morar na diocese de Valença o meu contato com este irmão era muito distante. Uma vez, conversávamos e ele dizia que, devido ao seu ofício, procurava não se aproximar tanto dos nossos formandos. Contudo, no meu retiro de ordenação presbiteral, essa história mudou. Foi uma das experiências de retiro mais interessantes que eu vivi. Ali, eu pude constatar a autenticidade de vida deste Confrade. Antes, eu havia ouvido falar muito sobre o Dom Elias, mas naquela ocasião, eu tive a oportunidade de ouvir e conversar com o próprio Frei Elias, como gostava de ser chamado. Ao fazer isso, eu não conseguia mais olhar para dom Elias e deixar de recordar de 2 Cel 152. A humildade deste Irmão tocou-me em cheio. E, após tornar-se bispo emérito, essa virtude da humildade ficou ainda mais evidente. O seu carinho para com as pequenas comunidades, a sua proximidade com o povo eram extremamente motivadoras. Sempre que me encontrava dizia: “Michel, eu estou te devendo uma visita. Preciso passar uns dias com vocês aí no convento”. Mas, esse dia nunca chegava...
Durante a novena preparatória de sua Páscoa, tive oportunidade de visitá-lo em duas ocasiões. Nas duas, embora dissessem que ele estava inconsciente, ao falar o nome de nossa custódia, pude perceber o seu afeto e carinho. Sempre esboçou reações diante de mim.
Quando soube da Páscoa de meu Irmão bispo, fui imediatamente à cidade Vassouras para ajudar na organização do velório do Confrade. Desta vez, pude constatar pessoalmente o carinho do clero para com ele. Quanta dedicação e empenho em dar-lhe um digno velório e enterro. Queriam que fosse contemplada, de alguma maneira, toda a nossa extensa diocese de Valença, mas, ao mesmo tempo não queriam deixar de lado a família religiosa do bispo que adotou o Brasil como sua pátria. Ao acompanhar as idas e vindas do corpo do confrade pela diocese, pude constatar o carinho do povo para com esse irmão. O carro que transportou o corpo de Dom Elias não passava indiferente pelas cidades. Todos queriam de alguma maneira expressar o seu último adeus a esse bispo irmão, que desejou ser enterrado, não como um prelado, mas sim como um frade, que nunca deixou de ser. 
Diante de tão grande testemunho, pude aprender um pouco de como vive e morre um frade menor: em pobreza, simplicidade, humildade e obediência. Queira Deus que, enquanto Frades, possamos um dia, desse modo, despedimo-nos desta terra. Desejo agradecer a Deus por ter me concedido a graça de viver com tão bela testemunha do jeito de ser franciscano contemporâneo no mundo. Agradeço também a toda Diocese de Valença, especialmente os irmãos no presbitério por todo carinho demonstrado para com o meu confrade bispo. Por Dom Frei Elias, elevo minhas orações a Deus e peço ao Confrade que rogue, juntamente com São Francisco, pelos frades do mundo inteiro, especialmente por nós frades da Custódia Imaculada Conceição. 
Como ensina São Francisco: “Louvai e bendizei a meu Senhor,
E dai-Lhe graças,
E servi-O com grande humildade”. Amém.


Publicado por Frei Michel da Cruz em 16/10/2019 às 06h59
 
08/09/2019 10h19
Deus não engana ninguém

Deus não engana ninguém e tão pouco traz alguém enganado. Ele não é adepto da propaganda enganosa. A promessa de Jesus Cristo é de felicidade, mas esta não se confunde com facilidade. O seguimento do Mestre da Galiléia exige radicalidade, adesão e comprometimento total. Dentro da hierarquia de valores e prioridades, Deus deve ocupar o topo, o primeiro lugar. Portanto, antes de se colocar na sequela Christi, no seguimento de Jesus, e se considerar um cristão é preciso parar, sentar-se e refletir se está pronto para percorrer esse caminho até o fim. Somente a sabedoria do alto é capaz de nos mostrar que vale a pena deixar tudo para seguir a Jesus Cristo.
A liturgia da palavra deste 23º domingo do Tempo Comum expressa essa realidade. A primeira leitura retirada do livro da Sabedoria (Sb 9,13-19), um escrito que tem sua origem no século I a.C., num mundo onde a cultura helênica era predominante, traz como grande tese a superioridade da sabedoria do povo de Deus em relação à cultura dos povos pagãos. O trecho apresentado pela liturgia versa sobre a superioridade dos pensamentos divinos em relação ao conhecimento humano. O autor sagrado procura questionar a capacidade humana de conhecer a vontade de Deus. Ao fazer isso, o hagiógrafo chega à conclusão que só é possível conhecer os desígnios divinos e, desta maneira, agradar a Deus se o próprio Senhor se revelar e se der a conhecer. Em outras palavras, de Deus só sabemos o que ele mesmo nos diz e ensina. Neste sentido, a leitura nos convida a clamarmos a sabedoria do alto e nos abrirmos àquilo que Deus quer nos revelar. Desta maneira, poderemos agradar ao Senhor e alcançarmos a sua salvação.
Por sua vez, a carta de São Paulo a Filêmom, a menor e a mais pessoal das cartas paulinas, Trata  da generosidade e do real sentido da fraternidade cristã, que iguala os homens desconsiderando suas diferenças. Nesta carta, Paulo intercede por Onésimo, um escravo fugido de Filêmon com quem Paulo se encontrou na prisão e conseguiu converter. Esse escravo se tornou um grande colaborador de Paulo na prisão. Por isso, o Apóstolo dos Gentios envia Onésimo de volta para junto de seu proprietário legal portando uma carta de recomendação, na qual São Paulo pede ao destinatário que acolha esse escravo não mais de acordo com sua condição social, mas como um irmão em Cristo e, mais ainda, como ao próprio Apóstolo. Nesta leitura encontramos a força da radicalidade cristã que supera todas as barreiras tornando todos os homens iguais na presença do Senhor, que não faz acepção de pessoas. O batismo nos iguala, pois, por meio deste sacramento, todos somos vistos e reconhecidos a partir daquilo que realmente somos: filhos de Deus!
Por fim, o Evangelho de hoje (Lc 14,25-33) trabalha o tema da radicalidade do seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aqui, não pode haver meios termos. Por isso, Jesus utiliza uma palavra forte para chamar a atenção da multidão que o segue. A busca do Reino exige renúncia e desprendimento. Quem se propõe a seguir a Jesus Cristo deve estar disposto a abraçar a cruz. Jesus, na verdade, abre os olhos daqueles que estão seguindo-o no caminho que culminará em Jerusalém. É interessante voltar ao início da perícope apresentada (Lc 14,25). Jesus ainda está caminhando para Jerusalém. O que espera o Senhor, neste lugar, é a rejeição e a cruz. No entanto, as pessoas parecem ainda não ter se atinado para esta realidade. Por isso, o Evangelho apresenta uma multidão seguindo Jesus. É neste contexto, que Jesus faz a sua advertência aos seguidores. Seguir o caminho de Cristo não é algo fácil. É preciso tirar da cabeça a falsa ideia de que é fácil ser cristão. No Evangelho de Lucas, Jesus ensina que o seu caminho exige renúncia. O cristão é chamado a colocar Deus em primeiro plano. O Senhor deve estar acima dos vínculos familiares, da posse dos bens e, até mesmo, da nossa própria vontade. Esse é o sentido de odiar (Misséô): colocar em segundo lugar, pois apareceu na vida um valor mais importante. O discipulado cristão é algo exigente. Ele implica em decisão e conversão. O Cristão é alguém que refaz a sua hierarquia de valores. Ele redimensiona e re-significa a vida. Por isso, a adesão ao projeto do Reino proposto por Jesus Cristo não pode ser somente um sim dado da boca para fora. O que está em jogo aqui é a entrega da própria vida e o comprometimento de todo o ser em todas as suas dimensões. Não é por acaso que Jesus fala da necessidade de se ponderar acerca da decisão de segui-lo. Antes de fazer de Cristo a opção fundamental de sua vida, o cristão é chamado a refletir se tem ou não condições de levar esse projeto até o final e às últimas consequências. Ao fazer isso, Jesus quer tornar clara a decisão que o cristão está tomando. A intenção do Senhor não é que as pessoas deixem de segui-lo. Pelo contrário, o que ele deseja é que elas, ao seguir-lo, tenham consciência do que estão fazendo. Daí surge a necessidade de se sentar, pensar e ponderar se vale a pena ou não arriscar tudo neste projeto de vida. Aqui é importante fazer uma ressalva e perceber a ligação do Evangelho com a Primeira Leitura. Somente a sabedoria do alto nos torna capazes de entender que vale a pena arriscar e deixar tudo para seguir a Jesus Cristo!
Que a Liturgia da Palavra deste Domingo nos torne conscientes da radicalidade da opção que fizemos no dia do nosso batismo e nos faça pessoas comprometidas com a causa do Evangelho, capazes de abraçar a nossa Cruz e ir na esteira de Jesus até as últimas consequências.
Abençoado domingo!
Paz e bem!


Publicado por Frei Michel da Cruz em 08/09/2019 às 10h19
 
01/09/2019 04h27
Lc 14,7-14

A humildade e a gratuidade são duas notas características do amor cristão e também são duas virtudes que os seguidores de Jesus Cristo devem cultivar para entrarem no Reino dos Céus.
Para entendermos Lc 14,7-14, é necessário voltar a nossa atenção para o primeiro versículo do capítulo 14 do Evangelho de São Lucas e compreendermos o contexto em que Jesus se encontra. Estamos ainda em viagem para Jerusalém. Neste caminho, Jesus é convidado, num dia de sábado, para fazer refeição na casa de um chefe dos fariseus. É a terceira vez que Jesus come na casa de fariseus, no Evangelho de São Lucas (Lc 7,36;11,37). Embora saiba que este grupo está interessado em descobrir alguma falha sua para entregar-lhe às autoridades judaicas, Jesus não foge dessas ocasiões e aceita fazer refeição na casa desse líder dos fariseus. A perícope que antecede imediatamente a passagem que acabamos de ouvir narra a cura de um hidrópico em dia de sábado. Nessa passagem, Jesus ensina que não existe limite legal que se impeça de fazer o bem. Podemos, assim, perceber que a refeição já começa expondo uma certa tensão entre o anfitrião e o seu convidado principal.
Os fariseus observam Jesus, mas também, o Mestre da Galileia os observa. É nesse contexto que Jesus expõe uma parábola e dá um conselho (Lc 14,12-14) que bem podem dividir o Evangelho em duas partes. Na primeira parte da cena (Lc 14,7-11), o Senhor se dirige aos convidados e, por meio de uma parábola, convoca-lhes a ter uma atitude de humildade. A parábola é contada partir da observação e constatação que faz da atitude dos convivas. Estes, acreditando que são bem quistos, ao adentrarem o banquete, escolhem os melhores lugares para se sentarem. Esqueceram-se que na festa são apenas convidados e querem portar-se como o dono da festa, que tem o direito de escolher quem se senta mais próximo ou distante dele. Jesus está chamando a atenção dos fariseus, que se achavam, devido ao seu grau de pureza e prática da religião, os donos do banquete do Reino de Deus. A parábola, assim, recorda que o anfitrião da festa do Reino é Deus e não os homens. Por isso, para entrar no Reino de Deus, a humildade é uma virtude indispensável. Somente os humildes são capazes de reconhecer a sua própria verdade. O humilde, ao contrário do orgulhoso, consegue perceber e reconhecer a sua fragilidade e finitude, por isso, coloca-se na vida não como aquele que possui méritos e direitos, mas sim de modo agradecido, como quem reconhece que tudo na vida é graça e dom de Deus. O humilde não vive a exaltar-se a si mesmo. Ele permite que Deus o faça. Jesus se utiliza de uma regra de educação para alertar aos fariseus acerca do cuidado que devem ter com sua própria prepotência e orgulho. A frase final desta parte (Lc 14,11) não é de autoria de Jesus. Provavelmente, ela pertencia ao círculo da escola rabínica de Hillel. No entanto, entre os primeiros cristãos, esse dito tinha um grande valor, pois, no Evangelho de São Lucas, ele aparece duas vezes (Lc 14,11; 18,14). É preciso ter humildade para não se apossar do Reino de Deus como um ladrão e permitir que Deus seja Deus em nossa vida e história. O cristão é chamado a ser humilde porque, em Jesus Cristo, Deus se revelou humilde (Fl 2,6-11).
Por sua vez, a segunda parte do texto (Lc 14,12-14) versa sobre a gratuidade. Aqui, Jesus se dirige ao dono da festa e lhe ensina quem, de fato, deve ser convidado para seus festejos. Provavelmente, o diálogo entre Jesus e o chefe dos fariseus ocorreu após a refeição, como uma espécie de sobremesa teológica. Nesta conversa, Jesus contraria o costume vigente de convidar pessoas próximas para as festas. O Mestre da Galileia desmascara o interesse que existe por detrás de tais convites. Convida-se quem se sabe que pode retribuir o convite: amigos, irmãos, parentes e vizinhos ricos. Jesus, neste caso, convida o dono da festa a mudar a atitude. Para o Senhor, é mais vantajoso convidar quem não pode retribuir de alguma forma o convite: os pobres, aleijados, coxos e cegos, em suma, os marginalizados da sociedade. Jesus, assim, chama a atenção para a gratuidade. Essa virtude ou característica faz parte do jeito de ser de Deus, que é sempre gratuito para com os homens. Aqui, revela-se um jeito diferente de amar. O amor cristão é sempre gratuito e desinteressado. Não existe mérito ou virtude em amar quem nos ama ou pode recompensar o nosso amor. Isso qualquer pessoa faz. Somente cristão é capaz de amar inimigos e servir quem não pode nos ser útil. Para falar a verdade, Jesus desloca a recompensa esperada dos homens para Deus. Ele parece fazer coro a resposta constante dos pobres diante de um benefício recebido: Deus lhe pague. É interessante notar que o pobre ao agradecer algo recebido não responde muito obrigado, como quem diz: estou obrigado, de alguma maneira, a retribuir-lhe. O pobre diz tão somente: Deus lhe pague. Pois, reconhece-se incapaz de pagar a dívida adquirida, mas confia que Deus o possa fazer.
O Evangelho de hoje é um grande convite a trabalharmos em nós as virtudes da humildade e da gratuidade como instrumentos necessários na construção de um mundo novo e melhor. Que possamos nos deixar levar por essas virtudes e, assim, modificarmos a nossa vida e as nossas relações.


Publicado por Frei Michel da Cruz em 01/09/2019 às 04h27
 
26/08/2019 07h26
Lc 9,28-36

Consegue enfrentar os sofrimentos da vida quem aprendeu a ver além e a contemplar a glória que se esconde por detrás da cruz. São Lucas 9,28-36 apresenta-nos a cena clássica da Transfiguração do Senhor. Essa teofania, manifestação de Deus, tem como objetivo revelar, para os apóstolos, considerados colunas da Igreja, antecipadamente, a glória da Ressurreição de Jesus Cristo. O Mestre da Galileia mal começou a sua caminhada rumo a Jerusalém e anuncia aos discípulos o que espera encontrar lá. Jesus não esconde, aos seus companheiros, o final trágico que o aguarda em Jerusalém. O Senhor está consciente da proximidade de seu fim. Ele não se esconde ou se esquiva de sua missão. Pelo contrário, ele caminha pressuroso para o seu destino. Os discípulos seguem o mestre sem entender direito qual é a sua proposta. Jesus já até havia feito, alguns versículos antes, por ocasião da confissão de Pedro, o primeiro anúncio de sua paixão (Lc 9,22), mas os discípulos não entenderam as suas palavras. É nesse contexto que Jesus escolhe Pedro,Tiago e João e os leva consigo para um momento de oração no alto do monte. É importante destacar que, no Evangelho de Lucas, Jesus é um homem feito oração. Antes de toda grande manifestação ou revelação do Poder de Deus, neste Evangelho, Jesus sempre aparece orando. A oração é o segredo do sucesso do cristão. Ela é o grande combustível da nossa caminhada. Cristão que não reza vira bicho e perde o rumo de sua própria estrada. É a oração, a intimidade com Deus, que nos move. Enquanto Jesus se dedica oração, algo extraordinário acontece. Ele se transfigura e deixa revelar a glória de Deus escondida por sua humanidade. A transfiguração é como uma amostra grátis da glória da ressurreição futura de nosso Senhor Jesus Cristo. Deus permite aos discípulos contemplarem esta glória, a fim de que eles não desanimem na caminhada rumo a cruz. Não podemos ter medo de enfrentar a cruz! 
Lucas também é o único Evangelista que revela o teor da conversa travada entre Jesus, Moisés e Elias. Os maiores representantes do Antigo Testamento falam para Jesus sobre a sua morte. A cena é sublime e acalma o coração. Não é por acaso que Pedro se recusa a sair daquele monte. Verdadeiramente, é bom estar na presença de Deus! Permanecer na contemplação da glória do Senhor, prolongar o nosso tempo de oração e de intimidade com Deus é sempre bom. Afinal, nessas horas, saímos de nós mesmos e nos colocamos na presença daquele que dá sentido a nossa existência. São nesses momentos preciosos de intimidade que Deus nos recorda que mais importante do que viver retirado no alto do monte, sem se preocupar com a vida e sem abraçar a própria cruz, é ter a coragem de descer a montanha e, sob os efeitos da transfiguração, colocar-se a caminho e ser todo ouvido a voz do Filho muito amado de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo.
A transfiguração é o penhor, a garantia e a certeza da ressurreição e da vitória final sobre as cruzes que carregamos em nosso dia-a-dia.


Publicado por Frei Michel da Cruz em 26/08/2019 às 07h26



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